Conhecendo Alguns Radioamadores

Por: TYRTEU ROCHA VIANNA - Sb-3QA

TYRTEU ROCHA VIANNA - Sb-3QA

Tyrteu Rocha Vianna nasceu em São Francisco de Assis, Rio Grande do Sul, a 22 de novembro de 1898 e faleceu em Alegrete-RS, a 21 de setembro de 1963. Seus pais foram Francisco Pereira Vianna e Maria Amélia da Rocha Vianna, descendentes de portugueses que se estabeleceram, de início, em Taquari, transferindo-se, mais tarde, para o município de São Francisco de Assis. Durante a sua mocidade, Tyrteu Rocha Vianna viveu em Porto Alegre, onde formou-se pela Faculdade de Direito, em 1922, elaborando excelentes provas e merecendo boas notas. Nessa época, foi "colorado" (torcedor do Sport Club Internacional) entusiasta. Já bacharel, retornou a São Francisco de Assis, exercendo um pouco de advocacia. Tyrteu era poeta. Por fim, radicou-se em Alegrete, ligando-se aos "Cadernos do Extremo Sul", em cujo número 12, de julho de 1959, aparece o seu poema "Versos para um tordilho chamado Maomé", o único que se conhece fora dos enfeixados em livro.

Esteve no Rio de Janeiro, estudando pintura. Percorreu a Europa. Recebia, através da Livraria do Globo, as novidades editoriais nacionais e estrangeiras.
Viveu das rendas de seus campos, caçando e pescando, solitário e ensimesmado, dialogando com os seus cães, importados da Inglaterra, e consigo mesmo. Jamais casou, ignorando-se qualquer caso amoroso sério. Sob os efeitos etílicos tornava-se violento e provocador, temido pelos próprios parentes e amigos. Quando sóbrio, porém, era afável e gentil, "causeur" desinibido e sobremaneira interessante. Venerava os cristais e os seus cães, possuindo uma seleta biblioteca e uma pinacoteca, hoje dispersas por completo. Além disso, foi um ledor voraz, excêntrico, desbordando mesmo para a anormalidade, no que se aparenta ao louco genial Qcorpo-Santo. Em "Escritura pública de testamento", lavrada em 1957, em Uruguaiana, declarou ser "Católico, Apostólico Romano".

Foi o Pioneiro Radioamador Gaúcho, lá pelos idos de 1925. Comunicava-se inclusive com o Japão. Na Revolução de 1930, Getúlio Vargas levou a referida Estação para ser utilizada pelo seu Estado-Maior, sendo, posteriormente, instalada no Palácio do Catete. "Saco de Viagem", único livro de poesia de Tyrteu Rocha Vianna, foi publicado, em 1928, pela Livraria do Globo de Porto Alegre. Suas páginas (64), não são numeradas. O livro traz, no colofão, os seguintes dizeres: "S. Chico" (São Francisco de Assis) - Palma (Fazenda de propriedade de um tio do poeta, radioamador), 15.11.27". Divide-se em duas partes: "Vontades de Versos Futuristas" e "Churrascos de Viagens", com 15 e 8 poemas, respectivamente. Já na capa, altamente significativa, traduz o seu futurismo marinettiano, evidenciando a velocidade e o movimento. Um enorme saco comparece, saindo do mesmo um automóvel, uma máquina de trem, um aeroplano, um navio e uma torre que extrovertem a intencionalidade do Autor e os seus objetivos precisos.

Até nisso ele fugia aos clichês das capas dos demais livros modernistas, exibindo motivos estáticos, em sua esmagadora maioria, ligados à terra gaúcha: o pampa, as coxilhas, o gado, a uva, etc. A única capa que se lhe assemelha, da autoria de Corona, é a do Trem da Serra, de Ernani Fornari, onde domina um cavalo de ferro, em louca disparada, com a cabeça e os braços de homem, espécie de Págaso da era industrial. Saco de Viagem é uma raridade bibliográfica, de tiragem sumamente restrita. Tyrteu Rocha Vianna é o poeta mais original do Modernismo Sul-Rio-Grandense, com a sua poética da radicalidade, a mais visceralmente ligada ao credo estético da Semana de Arte Moderna de São Paulo, de 1922. Sem qualquer demérito ou subordinação descaracterizadora, o "Oswald de Andrade" do Rio Grande do Sul. Saco de Viagem foi um livro fora de série, solitário e diferente, rejeitado ou ignorado pela quase totalidade dos modernistas que fundaram "Madrugada" (1926), que redigiram, a partir de 1927, a "Página Literária" do Diário de Notícias e que se tornaram, em 1929, colaboradores da Revista do Globo, sob a direção de Mansueto Bernardi.

A nossa geração modernista, capitaneada pelo aliciante Augusto Meyer, mais adaptação e prolongamento que efetiva renovação de todo um processo iniciado pelo Simbolismo e pelo Regionalismo, não soube compreender e muito menos valorizar a autêntica revolução copernicana que significou o inovador e subversivo Saco de Viagem. Por isso o repeliu, desde logo, pelo ataque frontal, pelo desprezo e, sobremaneira, pelo silêncio. Tyrteu Rocha Vianna foi o nosso modernista mais ortodoxo, mais vanguardista e demolidor, mais revolucionário e descompromissado com a substância nativista-simbolista que embasava, de forma precípua, o movimento sulino, na "fase heróica" (até 1930). O regionalismo, para exemplificar, foi uma das vertentes que irrigaram o novo credo estético. Porém, consabidamente edênico, em busca de um paraíso terrestre perdido, centrado na companha, bucólico, doce e sereno. Tyrteu Rocha Vianna pouco bebeu dessa água límpida e pura, de conotações saudosistas e celestiais. Explorou, maiormente, a paisagem urbana da nossa campanha, sem idílios ou embriagadores perfumes, colhendo, ao vivo, as suas mazelas e desigualdades sociais.

Foi mais sociólogo que arcadista, mais crítico implacável que idealista, descobrindo o lado grotesco e caricato, cômico e ridículo, mas real e pungente, de toda uma sociedade em decadência, vivendo do poder arbitrário e dos louros do passado. Para tanto, antecipando Guimarães Rosa, Tyrteu Rocha Vianna faz malabarismos com o seu tecido lingüistico, criando neologismos saborosos e inusitados, levados da "breca", mas densos de expressividade e de "humour" cáustico. Força na caricatura, atingindo as raias da irreverência, cínico e satírico ao mesmo tempo, dissecando uma realidade histórico-político-social em decomposição. Gaúcha ("Pelotas" e "Rio Grande", por exemplo) e brasileira ("Florianópolis", "Santos" e "Rio de Janeiro"). Vale-se de um humorismo crítico, fotográfico, contundente e azedo, em substancial oposição ao regionalismo-simbolismo originários do Grupo Modernista de Augusto Meyer, caracterizado, com algumas exceções, por um espírito suave, terno e paradisíaco. Tyrteu Rocha Vianna possui uma espantosa inventiva, violentando a linguagem continuamente, na ânsia sôfrega de colher tudo aquilo que o marcou fundo e para sempre. Assim emprega em Saco de Viagem, que tenho o privilégio de possuir um exemplar. Assim era o nosso Pioneiro Radioamador Gaúcho!