Conhecendo Alguns Radioamadores

Por: NAZARENO MEDEIROS - PP1WT

Hugo Oliveira

UM CERTO HUGO OLIVEIRA

Não se vai contar a história
de um general de batalhas
nem alinhar as medalhas
conquistadas na vitória,
mas afinar a memória
pra falar de uma tronqueira,
um pedaço de fronteira
da nossa estirpe baguala
que se orgulha quando fala
sobre um “certo  Hugo Oliveira”!

talvez por irreverência,
general sem quatro estrelas
que até fez por merecê-las
na caserna da existência;
um marechal na vivência,
água de antiga vertente
dos pagos de São Vicente,
soldado de campo e guerra,
desses que brotam da terra
e ficam para semente!

nasceu depois dos clarins
da gesta federalista,
no pôr-de-sol monarquista
nestes bárbaros confins.
Gaspar Silveira Martins!
Júlio Prates de Castilhos!
no Rio Grande dos caudilhos
que foi patrono da história
ao longo da trajetória
dormindo sobre os lombilhos!

herdeiro das mesmas ânsias
dos gaudérios indomados,
sempre mal aquerenciados
no tropel das circunstâncias;
piá criado nas estâncias
mais rijo que o tarumã,
rebento da velha clã
de um tal de José Oliveira
que andou domando tambeira
nos arenais do Saicã!

dali trouxe a picardia
dos causos e desaforos,
de uma linguagem de touros
mesclada com geografia,
sem perder a fidalguia
a elegância e a coragem,
desde piasito uma imagem
dos ancestrais primitivos
refletindo em traços vivos
a sua velha paragem...

mandaram quebrar dos queixos
com a professora da Vila
e ele fez cancha de esquila
com seus causos e desleixos.
mas tarde - pra entrar nos eixos,
nosso general sem soldo
teve de mudar de toldo
pra ver se sentava o toso
e lá se foi o tinhoso
pra um colégio em São Leopoldo.

ao longo da correnteza,
continuando no rodízio,
conheceu meu pai Aluizio
na humildade da pobreza,
servindo e limpando mesa,
aluno aplicado e sério,
dentro daquele critério
que não há força que arranque
pra - mais tarde - ser palanque
na cerca do magistério!

Hugo depois foi milico,
seguindo a moda da terra,
serviu no Tiro de Guerra,
cousa criada pra rico,
depois escondeu pinico
pra judiar das solteironas,
primas e tias - siá donas,
muito mais brabas que cobras.
voluntário de manobras
com tiradas brincalhonas.

e prossegue a trajetória
do irrequieto general,
seus causos de colegial
por si só fazem história
e pra sua maior glória
de alarife e perdulário,
pra enfeitiçar o rosário
da vida errante de poeta
conheceu a Predileta
e a filha do velho Mário!

cerra o namoro com a Lícia,
da nobre estirpe Marsiaj,
de soberana linhagem,
uma beleza patrícia,
a mais sagrada primícia
que encontrou pelo caminho,
fonte de puro carinho
pra seus instintos tropeiros.
luz da rua dos coqueiros.
luz da Saldanha Marinho!

o confete - a serpentina,
o corso - o lança-perfume,
um período que resume
essa vivência brasina,
alguém que toreia a sina
sem se importar com cavaco,
a cousa foi de voar caco,
deu estouro - seu refugo,
quando apareceu o Hugo
fantasiado de macaco!

até que lá um belo dia,
depois de tantos perdidos,
foi pros Estados Unidos
“tirar a capatazia”
que depois continuaria
com brilhantismo inconteste.
ali o gaúcho se veste
do instinto do cowboy
e se enfronha o nosso herói
nas estâncias do farwest!

é o soldado sem quartel
sem farda nem regimento,
galpeando contra o vento
na ânsia de menestrel
que vai tranqueando o corcel
como quem come laranjas,
dava pra trançar as franjas
das tiradas quixotescas
e aventuras donjuanescas
que ele viveu nas estranjas.

Urbana - El Paso - Chicago,
andança das mais turunas,
tropeando baldas reiunas
lá tão distante do pago,
o destino de índio vago
de uma fronteira pampeana
pra outra mexicana,
as duas tão parecidas
na coincidência das lidas
a gaúcha e a texana!

nas barrancas do Rio Bravo,
o Rio Grande dos States,
andou livre - sem enfeites
nem reproches - nem agravo,
sem gastar nenhum centavo,
sempre no jeito e no braço,
no estilo gauchaço,
ele foi - venceu e viu,
nas manhas que repartiu
com o chinaredo de El Paso!

e andou todos os lugares
sempre aprontando das suas,
nos campos - praças e ruas
e mesmo nos lupanares;
entrou na pátria de Juarez
que ali ao lado se perfila
e foi botando na fila
a culpado e inocente
até mesmo frente a frente
com a gente de Pancho Vila!

no português ensinado
a uma gringa postalista,
só por farra - o nosso artista,
ensinou tudo trocado
e o terrível resultado
de pronto se produziu,
a gringa se confundiu
e - na expressão mais sadia,
ao “good morning” respondia:
- “vai a puta que o pariu”!

se veio - de volta às plagas,
após três anos de ausência,
pra reempeçar a existência
ali na Parada Chagas,
no convívio das adagas,
das lidas - do vizindário,
campeiro e veterinário,
lidando com potro e gado,
depois de ter se casado
com a Lícia do velho Mário!

e foram chegando os filhos
cada qual uma fortuna,
junto à Lícia - flor de tuna
que nunca perdeu os brilhos
e o Hugo seguindo os trilhos
da impaciência e da inquietude,
guardando o estilo rude
que não se amolda a diploma,
desses que morre e não doma
as ânsias da juventude!

lá um dia é o fiscal do Banco
do Brasil - Hugo Oliveira
que andou na serra e fronteira
e litoral - bueno e franco,
mordendo ao primeiro arranco
no estilo mais repentista,
se via a primeira vista,
já mostrava na aparência,
na própria pilcha a vivência
do Rio Grande nativista!

ele é mestre na pecuária,
ele entende da lavoura,
é fonte renovadora
da nossa indústria primária
e na vivência bancária
padrão de luta - um esteio,
desses que parou rodeio
como gaúcho e fiscal,
na verdade um marechal
nas zonas do pastoreio!

não há pena que defina
e nem paleta que pinte
esse estranho contribuinte
da nossa terra genuína,
porque conhece e domina
da vida - os sete instrumentos,
homem pra quaisquer momentos,
parceiro pra qualquer lida
que sabem cruzar na vida
ministrando ensinamentos.

foi aluno e professor,
veterinário e tropeiro,
foi plantador - estancieiro,
milico e radioamador,
era um prazer e um primor
ouvir esse Hugo austero,
“o 3EZ - estaca zero”
encantador das audiências
que andava pelas freqüências
mais vivo que um quero-quero!

testemunha das mudanças,
assistiu todas as fases,
dessa pátria - cujas bases
estremecem nas finanças,
porque os maestros das danças,
quase todos insensatos,
sempre pautaram seus atos
deixando o povo de fora,
como exemplo - esse de agora,
só pensa nos seus mandatos!

não há quem possa rastreá-lo
ao longo do jornadeio,
corajudo e quebra-freio.
de à pé - de auto e de à cavalo,
guardando sempre o embalo
durante os noventa anos,
com a fibra dos veteranos,
sempre ouvindo o próprio grito,
levando pro infinito
os seus anseios ciganos!

e deixou por descendentes
filhos do mais alto aprumo
pra se orgulharem do rumo
desse taura entre os valentes
e as lições sempre presentes
de quem vivendo aprendeu,
foi nobre - lutou - venceu,
sem se perder na vertigem,
preservando sempre a origem
do Rio Grande onde nasceu!

Paulo - Moema - Renan,
dona Lícia e o Duduto,
há um orgulho absoluto
pelo cacique da clã,
o legendário tajã
das várzeas do Cacequi
que andou tanto por aí
gauderiando noite e dia,
guardando as baldas da cria
e a inocência de guri!

foi num domingo
já no estertor,
no pôr-de-sol
mais rápido e mais lindo,
se foi embora
como tinha vindo
envolto
na Bandeira Tricolor!

se foi embora
para a eternidade
mas não se apaga jamais
Hugo Oliveira,
é aquele mesmo
pedaço de fronteira,
hoje uma lenda
mesclada com saudade!!!!!!!!

Jayme Caetano Braun
Viamão-RS, Junho de 1988