Conhecendo Alguns Radioamadores

Por: ORIVAL BIANCHI - PY3BIC

ORIVAL BIANCHI - PY3BIC

José Carlos Cabral Bianchi

Nascido em Alegrete-RS, em nove de maio de 1920, Orival Bianchi era o caçula dos quatro filhos de Feliciano e Clarice Bianchi. Seu pai, artesão funileiro, faleceu quando ele ainda não completara dois anos. Teve, pois, uma infância sofrida e difícil. Logo após o falecimento do pai, a família mudou-se para Uruguaiana, levada por um de seus tios, que os ajudou nos primeiros tempos. Sua mãe, costureira, começou a trabalhar para a Cooperativa dos Ferroviários, confeccionando sacos para alimentos e outros produtos distribuídos para os cooperados nesta embalagem. Também fazia roupas sob encomenda. Ele, menino, a ajudava fazendo as entregas. Seu irmão mais velho conseguiu um emprego na Viação Férrea e começou a aprender telegrafia. As irmãs ajudavam à mãe nas costuras e faziam bordados. Estudou no Colégio Municipal Elisa Valls onde fez o primário e o ginásio. Era um aluno aplicado, sempre tirou boas notas. Jogava futebol e adorava ir ao cinema, quando conseguia juntar algum dinheiro para o ingresso.

Sua pequena estatura e o corpo franzino lhe valeram o apelido de Mosquito que ao longo do tempo, na escola, ou entre os amigos da infância, evoluiu para Chico ou Chiquinho, como foi chamado a vida toda pelos familiares e amigos mais íntimos. Ainda adolescente aprendeu o ofício de Tipógrafo e em seguida estava trabalhando numa pequena tipografia da cidade ajudando nas despesas da casa. Tinha um talento nato para desenho e ótima noção de estética, com isso, logo passou a compor, na tipografia, as páginas de jornal e panfletos. Quando chegou à idade de prestar o Serviço Militar, foi reprovado por sua pequena estatura e pouco peso. Mas o Brasil logo se juntou aos Aliados na Segunda Guerra Mundial e ele alistou-se, como voluntário, indo servir no 6º Regimento de Cavalaria, em Alegrete. Nesse tempo, em um exercício de travessia de curso de água, levou um coice do cavalo e ficou com uma pequena distorção na visão do olho esquerdo para o resto da vida.

Sua ilibada conduta, seus conhecimentos de aritmética, história e geografia dos tempos do colégio e uma caligrafia invejável garantiram-lhe uma vaga no Curso de Cabo. Alguns anos depois, pelos mesmos motivos e por seu talento para o desenho, foi selecionado para fazer o Curso de Sargento para uma vaga de Sargento Desenhista. Por esta época já estava namorando com Marianna Bety, uma moça de Uruguaiana, irmã de um amigo seu de infância e que seria sua esposa e companheira por mais de 61 anos. Ainda como Sargento, como havia aprendido o ofício de Telegrafista com o irmão, entrou para o Serviço de Comunicações do Exército. Nos mais de 25 anos em que serviu ao Exército, passou pelas guarnições de Uruguaiana, Alegrete, Santa Rosa e Porto Alegre. Em 1965, passou para a Reserva do Exército e, a convite do Gen. Fontoura, então chefe do Serviço Nacional de Informações, passou a trabalhar naquele órgão e também na Policia Federal, como telegrafista, mudando-se definitivamente para Porto Alegre, onde 10 anos antes construíra um chalé no bairro Chácara das Pedras. Seus dois filhos mais velhos ingressaram no Colégio Militar e seguiram carreira como oficiais do Exército, José Carlos é hoje Coronel de Infantaria e Luiz Alberto Coronel de Engenharia, ambos também na Reserva. O terceiro, Edison Roberto, é Professor de História na rede estadual de ensino. Paulo Sérgio era policial civil e faleceu num acidente em 1998. Rita, a única filha, casou-se também com um Policial Civil já aposentado.

Tinha muito orgulho de sua família. Amava sua esposa, seus filhos, seus 19 netos e 5 bisnetos, que também tinham por ele muito amor e grande admiração. Era um homem humilde, de gostos simples, despido de vaidades, espirituoso, honestíssimo e muito leal aos amigos. E como tinha amigos! Muitos ainda dos tempos da infância. Era Gremista fanático e adorava sua terra natal, Alegrete, e também Uruguaiana, onde nascera sua querida esposa. Seu falecimento em 2 de setembro do corrente ano, calou o PY3-BIC, seu indicativo, como Radioamador. Não mais será ouvida sua voz grave e vibrante nem suas transmissões em CW, inconfundíveis, quer no manipulador, quer no Vibro. Mas sua bonita história como homem de bem, como cidadão, como militar, como pai de família, como radioamador, como amigo atencioso e dedicado, isso ficará para sempre no coração daqueles que o conheceram e o admiravam.

e-mail: jotabianchi@hotmail.com