Conhecendo Alguns Radioamadores

Por: ANALISE REICHERT BORNGRABER - PY3AVE

ANALISE REICHERT BORNGRABER - PY3AVE

WALTER BORNGRABER - PY3AIG
25.10.1914 - 12.12.2002

NOS MUITOS QTCs DESTE CASAL ESTÁ UMA LIÇÃO DE HUMANISMO

A menor peça de um apartamento da Cristóvão Colombo. Aquele quartinho que nos anúncios de imóveis diz que é para a empregada. Muita gente usa para botar as bugigangas. Mas é num cubículo destes que dona ANALISE REICHERT BORNGRABER instalou seus equipamentos. É a única mulher, no Rio Grande do Sul, radioamadora em constante atividade. Quando necessário, o Brasil inteiro sabe. Os colegas logo informam que a PY3AVE é uma senhora que não mede esforços para quebrar qualquer galho. Dedica todo seu tempo livre ao radioamadorismo. Para a prestação de serviços e para o papo amigo. Tudo naquela pecinha de um metro por dois. “A peça não precisa ser grande para fazer uma boa ação”. Pois na Cristóvão Colombo, 878 - apartamento 5, é que dona Analise opera com o “Geloso” em 80 e 40 metros, com o “Collins KWM2”, em 20 metros. Aí vai ao ar uma voz clara e segura pra dizer “PY3AVE, com bom dia na freqüência”. Ou então “boa noite”, que para Dona Analise não tem hora especial. Sempre que pode liga os aparelhos. Fica “corujando”. É caso grave, dá para ajudar, intervém na conversa e oferece seus préstimos. Não raro leva para a salinha o tricô ou croché, que dá para fazer as duas coisas. Trabalhar com as linhas e agulhas e entrar na famosa “rodada da amizade”. Isto de manhã ou de tarde. À noite, fica na escuta ou falando, como membro da “patrulha da madrugada”. O negócio entra madrugada dentro e dona Analise fica firme para o que der e vier. Pode surgir um chamado urgente, algo que esteja ao seu alcance. Pode entrar na sua freqüência alguém que queira trocar umas palavras.

“Se é pra passar as noites em claro, não há problemas. A gente esta no radioamadorismo é pra ajudar a quem precisa.” Foi assim que dona Analise não descansou enquanto não estourou um “QTC” vindo de Buenos Aires. Precisava localizar uma pessoa em Caxias. Falou com a central telefônica de lá. Entrou em contato com um motorista de taxi. A pessoa foi localizada. Outra vez foi uma família paulista que estava viajando pelo Rio Grande do Sul. Acontece que uma das crianças, pouco antes da viagem, foi mordida por um cachorro. Dona Analise se comunicava todos os dias com São Paulo e informava à família, que andou pela serra e litoral. Por segurança tinha que se constatar se o cão estava ou não raivoso. Depois de 24 dias de ligações, dona Analise e seu espôso foram a Capão da Canoa tranqüilizar a família. A criança não corria perigo. Passados os dias críticos, o animal não mostrou sinais de raiva. Em todos os casos, seu Walter, o espôso, toma parte. Também é radioamador, associado da LABRE, com prefixo PY3AIG. “Ele é técnico em eletrônica, nascido na Alemanha, e tem todo o bom humor germânico.” Um gozador: “Quando os aparelhos não apresentam defeitos, a Analise diz: - não mexe nos meus transmissores”. - quando estão com alguma falha, - Walter, faz  favor de consertar os teus aparelhos.” Muito alegre o casal. Dêsses que não pagam imposto pra rir com vontade. Dêsses que a gente tem impressão que conhece a muito tempo. É por isso que não há radioamador brasileiro que não conheça Analise e Walter. Já tiveram muitas demonstrações de carinho no radioamadorismo e sorriem satisfeitos quando relembram. Ultimamente o seu Walter não opera muito. Gosta é de pegar o “Collins” e falar a longa distância. Um caçador de figurinhas difíceis. Já dona Analise se contenta em ficar no “Geloso”. Sua faixa de atuação é todo este Brasil. Tem bom ouvido para gravar os sons e conhece a maioria dos amigos pela voz. Gosta de participar das rodadas. Uma radioamadora “munheca”. Agora, na hora do pega, do pedido urgente, os dois trabalham parelhos. Já perderam a conta dos QTCs que estouraram. Muita vez, depois de um serviço prestado, aparece gente querendo saber “quanto custa”. Aí eles explicam que radioamadorismo é isso mesmo. Que a dedicação não tem preço, mesmo que tenham gasto com taxis ou viagens. Que para eles é uma espécie de sacerdócio voluntário. Que, na maioria dos casos trabalham unidos.

Estão casados há trinta anos. É com a mesma união e ternura que falam da filha que é casada e da outra, recém formada em biblioteconomia. Dona Analise, com o marido cobrão em eletrônica, desde os primeiros anos de casada se interessou pelo radioamadorismo. Muito antes de pensar em fazer testes, já dava as suas corujadas. No início não dava porque as meninas ainda eram pequenas. Em 56, fêz exames para ganhar o prefixo. Rodou na primeira “que saber Código Morse é brutal”. Mas venceu a força de vontade - vontade de ser útil aos outros - e recebeu o novo nome, PY3AVE. Um prefixo que lembra uma mulher que sempre tem uma palavra de conforto. Alguém cheio de calor humano e em quem se pode confiar cegamente. “Nunca tive decepções sendo uma das poucas mulheres radioamadoras. Ao contrário, me sinto realizada. Foi no radioamadorismo que encontrei os melhores amigos. Às vezes meu marido viaja e minha filha sai com as amigas. Não me sinto só”. É que dona Analise vai para sua salinha, gira um botão e, pronto. Sempre é bem recebida nas rodadas. Conversa com um amigo de Corumbá, São Paulo ou Cachoeira como se fosse um membro da família.

Além do mais, dona Analise é da diretoria da Casa do Radioamador Gaúcho - CRAG. O casal sempre participa dos congressos e reuniões da classe. No veraneio, nunca ficam parados. Em Capão da Canoa há o Rádio Clube. A estação de lá está sempre no ar. Nunca se sabe, os problemas graves aparecem quando menos se espera. Assim, os radioamadores em veraneio se revezam no plantão. Assunto sobre um casal de radioamador tem demais. Ainda mais se são como Analise e Walter que combinam até na alta dose de humanismo. No caso de dona Analise, uma das poucas mulheres no radioamadorismo, dá para lembrar aquele filme francês e dizer “se todas as mulheres do mundo fossem...”.

Obs.: Matéria publicada no Jornal FOLHA DA MANHÃ, de Porto Alegre-RS, página 34, de 12 de março de 1970, extinto em março de 1980, que pertencia a Companhia Jornalística Caldas Júnior.