RÉPLICA DO TRANSMISSOR DE ONDAS

DO Pe. ROBERTO LANDELL DE MOURA

Por: Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR

RÉPLICA DO TRANSMISSOR DE ONDAS DO Pe. ROBERTO LANDELL DE MOURA

MARCO AURÉLIO CARDOSO MOURA

Em maio de 2004, o gaúcho Marco Aurélio Cardoso Moura, natural de Porto Alegre, onde reside, funcionário da Caixa Econômica Federal, concluiu a construção da réplica do Transmissor de Ondas (Wave-Transmitter, patente americana nº. 771.917, de 11 de outubro de 1904) do Padre-cientista Roberto Landell de Moura. A construção demandou dois anos entre pesquisa, fabrico de peças e testes. Essas atividades foram sobremodo dificultadas pela inexistência de dados descritivos, tais como dimensões e tipos de materiais originalmente empregados. Marco Aurélio Moura afirma que, praticamente, todas as peças do transmissor foram experimentadas e refeitas várias vezes, até que fosse possível obter um funcionamento adequado.

Relata ainda Moura::

- “embora, para os dias de hoje, o circuito possa parecer rudimentar, constatei que a construção do Transmissor de Ondas é crítica em vários aspectos, a saber: a construção dos dois capacitores, no que se refere às capacitâncias e tensão de trabalho, foi tarefa que consumiu muitos meses, até que fosse possível obter em cada um deles as características ideais que permitissem o funcionamento de ambos em conjunto. O sistema realmente não funciona se os capacitores não forem construídos de forma adequada. Isso só foi possível com repetidas experimentações;

- o interruptor fonético (microfone) foi uma história a parte. Testei dez tipos de diafragmas e obtive resultados razoáveis com bronze fosforoso e com folha de flandres. Entretanto, o diafragma feito em madeira foi o que melhor respondeu às vibrações da voz. O diafragma de madeira foi feito com duas lâminas coladas (essas usadas para revestir móveis), com as fibras em ângulo de 90º. O material assim obtido ficou com a espessura de 1,30mm. Sem dúvida, o funcionamento do diafragma é um dos pontos mais críticos do aparelho. Inicialmente imaginava que o material devesse ser flexível e fino. Puro engano. Um material mais fino, tal como o latão com 0,1mm de espessura, ao vibrar com a emissão da voz, provoca no eixo do microfone uma série de “maus-contatos”. Esse fato produz intenso centelhamento nos contatos, bem como um grande e rápido aquecimento, provocando a queda da tensão e fazendo com que a centelha entre as esferas fique débil, com freqüência irregular ou inexistente;

- por outro lado, ao utilizar-se diafragmas mais grossos que o ideal, verifica-se a diminuição drástica da sua capacidade de responder às freqüências da voz. Conclusão: se o diafragma não tiver a espessura adequada, o sistema não funciona. Nesse aspecto, é interessante verificar o que dizia o Padre Landell de Moura, em um dos trechos da descrição do projeto (patente americana nº. 771.917); “..., pode-se regular o ajustamento dos terminais fixos e do diafragma, até que a amplitude das vibrações seja suficiente para eliminar todos os tons, menos os fundamentais. De fato, pode ser dado mais peso ao diafragma, se assim for preciso, ou as suas pulsações podem ser, de outro modo, retardadas.”

- para os contatos entre o eixo do microfone e o diafragma, testei alguns materiais como prata, latão, cobre e bronze, mas todos apresentaram aquecimento demasiado e corrosão rápida pelo centelhamento. Utilizei, então, dois contatos feitos com uma liga especial de metais, contatos esses tirados de uma velha chave contadora de alta qualidade. Vale referir que, ao contrário do que alguns imaginavam, o funcionamento do sistema através do “liga-desliga” do interruptor fonético não transmite apenas ruídos de descasgas elétricas. O sistema modula e permite perceber-se as variações de freqüência da voz. Não foi surpresa a modulação algo imperfeita, pois há que se considerar o pioneirismo do invento que se constituiu na primeira e bem sucedida tentativa de transmissão da voz por ondas eletromagnéticas. Vale lembrar que na descrição do projeto objeto da patente americana nº. 771.917, de 11 de outubro de 1904, o Padre Roberto Landell de Moura dizia: “Certamente é impossível obter um  ajustamento de contato tão perfeito que reproduza todos os harmônicos e torne perfeita a articulação; ...”

- a bobina de indução foi feita, inicialmente, utilizando bobinas de ignição de automóvel. Com esse material fiz várias tentativas, ligando primários em série, secundários em paralelo, etc. etc. Tudo em vão, destruí seis bobinas. A maioria das experiências produziu centelha entre as esferas, entretanto todas as bobinas aqueceram demasiadamente e “queimaram” o secundário em poucos minutos de uso. Assim, parti para a solução que eu tinha até então evitado: construir uma bobina de Ruhmkorff;

- a bobina foi feita com 220 espiras de fio AWG-14 no primário e 20.000 (vinte mil) espiras de fio AWG-28 no secundário e produziu grande e abundante centelha entre as esferas; entretanto, demandou altíssima corrente no primário, aquecendo a fiação e chegando a derreter as soldas dos contatos entre o diafragma e o eixo do microfone. Tentei resolver o problema intercalando resistências para reduzir a corrente ou a tensão mas o resultado prático foi que o sistema deixou de centelhar entre as esferas;

- retirei a bobina de Ruhmkorff e instalei em seu lugar um transformador antigo de alta tensão, com saída de 12.000 V, desses usados para luminosos de gás neon. Embora o transformador seja dimensionado para operar com corrente alternada de 127 V, funcionou extremamente bem para a finalidade desejada, com corrente contínua de 12 V. Nesse sentido, saliente-se que o próprio Padre Landell de Moura, na patente americana nº. 771.917 (Wave-Transmitter), quando descrevia as conexões do sistema, dizia: “Nessas figuras, “F” é uma bobina de Ruhmkorff ou outra qualquer bobina de indução e de alta potência, ajustada de maneira a produzir uma centelha de certo comprimento...”

O aparelho foi testado, usando-se como receptor um rádio com várias faixas de ondas. A melhor recepção se deu em Ondas Médias, em torno dos 540 KHz, sendo que em FM também foi recebido o sinal da transmissão. Em 23 de maio de 2004, os testes da réplica do Transmissor de Ondas foram assistidos pelos radioamadores Flavio Walker da Silva - PY3AFS e Ivan Dorneles Rodrigues - PY3IDR. Na construção da réplica, Marco Aurélio contou com o apoio técnico dos senhores Rolf Stephan e Alexandre Stephan, diretores da Eletro-Mecânica Apex Ltda., de Porto Alegre.