Jornal do Comércio - Notícias Publicadas

Por: Rodrigo Moura

TODAS AS NOTÍCIAS SOBRE LANDELL PUBLICADAS NO
JORNAL DO COMMÉRCIO DO RIO DE JANEIRO
(1897 - 1905)

Agradecemos ao Rodrigo Moura o envio do relatório de suas pesquisas sobre o que foi publicado no Jornal do Comércio sobre Landell de Moura. Mesmo sendo um material que ainda será usado para futura publicação de seu livro sobre inventores brasileiros injustiçados, sendo Landell  um dos importantes personagens, ele fez questão de partilhar conosco, e já estamos publicando para conhecimento dos interessados sobre a vida e obra de Landell de Moura. A história destes personagens, conquanto nos dê muito trabalho pesquisá-las, não deve ser guardada como uma propriedade nossa, compartilhar o que descobrimos é um ato nobre. Um mesmo material pesquisado, é rico em si mesmo como documento, mas torna-se mais rico ainda pelo ponto de vista abordado, pela análise que se faz do que se encontrou. Quando um arqueólogo encontra uma pedra com caracteres de escritas de uma língua desconhecida, certamente seu nome fica registrado como descobridor, mas com certeza quem decifrar o que lá está escrito, terá também um grande valor, senão o maior. O achado da pedra gerou dois fatos importantes: O da  descoberta e o da  interpretação de seu conteúdo.

Ao Rodrigo nosso agradecimento - Julho 2002

1897
16 de março, página 3:
Muito concorridas estão sendo as conferências do padre Roberto Landell na matriz da Glória. De palavra fácil e em linguagem compreensível, tem o padre Landell dissertado sobre Deus e a Natureza, produzindo no auditório agradável impressão.
No próximo domingo dissertará sobre a Divindade.

21 de março, página 2:
Na matriz da Glória realizar-se-á hoje, às 10 horas da manhã, a 3a conferência pelo padre Roberto Landell, sendo o tema - a divindade.

27 de março, página 2:
O amor será o assunto sobre o qual dissertará o padre Roberto Landell, na Quarta conferência que deve realizar-se amanhã, às 10 ½ horas da manhã, na matriz da Glória.

28 de março, página 2:
Realiza-se hoje às 10 horas da manhã na matriz da Glória a quarta conferência, sendo orador o distinto pregador o revdo. Padre Roberto Landell, que falará sobre o amor.

8 de dezembro, página 3:
O padre Roberto Landell dissertará hoje às 9 ½ da manhã na igreja de S. João Batista da Lagoa, sobre a mulher forte. Esta é a 4a conferência do Sr. padre Landell que em linguagem fácil e compreensível atraiu a atenção de seu auditório, discorrendo sobre o homem, a alma e a imortalidade da alma

1898
21 de janeiro, página 3:
Fazem hoje anos o Sr. padre Roberto Landell, que tão apreciado tem sido nas conferências religiosas que tem feito em igrejas desta cidade, e o provecto magistrado Caetano Pinto de Miranda Montenegro.

1899
14 de junho, página 1:
O TELÉFORO
O “Diário Hespanhol”, depois de várias considerações sobre o telégrafo sem fio e de citar diversas experiências com feliz resultado, diz o seguinte em artigo sob o título supra:

“Enquanto essas colossais conquistas têm lugar no velho mundo, vejamos as que na mesma ordem de progressos alcançam os preclaros talentos americanos, filhos deste fecundíssimo Brasil. O Rev. Padre R. Landell tem a mesma linha máxima de partida que os inventores europeus, mas difere quanto aos aparelhos de emissão recepção e outros agentes que entram por muito na facilidade de construção e funcionamento dos seus diferentes mecanismos. O Padre Landell já conseguiu transmitir a palavra a uma distância maior de sete mil metros, servindo-se do éter, das correntes telúricas e do ar eletrizado; o aparelho transmissor, porém, colocado no ponto de partida, como o receptor no ponto de chegada, são, repetimos, inteiramente distintos dos das invenções européias, e mais, não emprega tubos de cristal, nem limaduras metálicas de espécie alguma em seu maravilhoso trabalho.  

Os mecanismos de que usa recolhem a voz e a lançam através do espaço em uma direção determinada, seguindo invariavelmente o caminho mais curto que medeia entre o transmissor e o receptor, isto é, uma linha inteiramente reta, seja qual for o estado atmosférico no instante em que se verifica a transmissão. Nas diversas experiências executadas recentemente notou o inteligente inventor, que a zona que à mercê das vibrações do éter percorre o som articulado, se vai alargando à medida que se aproxima do receptor, de modo que, colocando-se vários desses receptores dentro do mesmo campo de recepção, alguns metros separados uns dos outros, todos eles recebem ao mesmo tempo com a mesma clareza a palavra transmitida. Deste resultado, que se saiba, não o obteve sábio algum, nem no velho nem no novo mundo, cabe ao padre Landell toda a glória da invenção.  

Para tal alcançar não se pense que o infatigável homem de ciência foi de um salto, há muitos anos que faz experiências e estuda metodicamente, entregando-se inteiramente à consecução do triunfo que acaba de conseguir, sujeito por certo às leis da mais esquisita precisão, das quais fez nascer o seu pequeno aparelho transmissor e o seu pequeníssimo receptor. Como trabalho, um e outro são notáveis, como se compreenderá do seguinte: Colocado o aparelho transmissor em um compartimento qualquer junto a uma janela aberta, em frente da qual e a seis ou sete mil metros de distância esteja colocado ao ar livre o receptor, poderão falar duas pessoas como se estivessem a um metro de distância uma da outra. Como se explica essa surpreendente operação? Eis o que diz o inventor:  

‘O aparelho transmissor recolhe a palavra pronunciada com toda a naturalidade. Em virtude da especialidade de sua construção, imprime-lhe a força suficiente para que o fluido etérico, que constantemente invade o dito aparelho e que está unido por invisível e elástica cadeia com o receptor posto a seis ou sete mil milhas de distância, de vibração em vibração, aumentando estas de poder e de rapidez à proporção que a palavra ou o som se afastam do ponto de partida, transpõe-se a referida distância com a ligeireza do pensamento, isto é, o éter serve no caso presente da mesma forma que antes servia o fio de metal, como condutor da linguagem telegráfica, com esta diferença, o fio metálico aprisiona a eletricidade dentro de uma zona limitada a seu próprio diâmetro na trajetória que percorre, entretanto que a onda sonora ou a palavra transmitida, servindo-lhes de veículo condutor o éter, as corrente telúricas e o ar eletrizado, ao passar do transmissor ao receptor, estabelece em redor da reta invisível, em que se apóia um campo largo em ativa vibração, cujas dimensões aumentam, como antes dissemos, à medida que se vai aproximando do plano de recepção.’”

No domingo próximo passado, no alto de Sant’Ana, cidade de São Paulo, o Padre Roberto Landell fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção

16 de julho, página 1:
SÃO PAULO, 15 DE JULHO
O padre Landell de Moura realiza amanhã, no Colégio das irmãs de S. José, no alto de Santana, uma experiência sobre telefonia sem fios, estando convidados para assisti-las diversas autoridades, homens de ciência e representantes da imprensa. 

1900
10 de junho, página 2:
No domingo próximo passado, no alto de Sant’Ana, cidade de São Paulo, o Padre Roberto Landell fez uma experiência particular com vários aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade, através do espaço, da terra e do elemento aquoso, as quais foram coroadas de brilhante êxito. Estes aparelhos, eminentemente práticos, são, como tantos corolários, deduzidos das leis supracitadas.
Assistiram a esta prova, entre outras pessoas, o senhor P. C. P. Lupton, representante do Governo Britânico, e sua família.  

16 de junho, página 2:
Ao Sr. P. C. P. Lupton dirigiu o Padre Roberto Landell a seguinte carta:  
‘Conquanto sejam muitos os aparelhos que tenho imaginado para demonstrar algumas leis, em parte desconhecidas pelo mundo científico, as quais foram por mim descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade, através do espaço, da terra e do elemento aquoso, todavia, por falta de recursos e de bons mecânicos de minha inteira confiança, apenas cinco serão exibidos, a saber: o ‘Teleauxiofono’, o ‘Caleofono’, o ‘Anematofono’, o ‘Teletiton’ e o ‘Edifono’, todos deduzidos, como tantos corolários, das leis supracitadas. Estes aparelhos são eminentemente práticos e podem desde já prestar bons serviços.

O Teleauxiofono é a última palavra, a meu ver, sobre telefonia com fio, não só pelo vigor e inteligibilidade com que transmite a palavra, mas também porque, com ele, se obtêm todos os efeitos do telefone ‘alto-parlatore’ e do ‘teatrofone’, com esta notável diferença, que, tratando-se da teatrofonia, é bastante um só transmissor por maior que seja o número dos concertantes. Além disso, com o ‘Teleauxiofone’, o problema da telefonia ilimitada tornar-se-á uma realidade prática e econômica.  

O ‘Caleofono’, como o precedente, trabalha também com fio, e é original porque, em vez de tocar a campainha para chamar, faz ouvir o som articulado ou instrumental. É muito apropriado para os escritórios. O ‘Anematofono’, com o qual, sem fio, obtêm-se todos os efeitos da telefonia comum, porém com muito mais nitidez e segurança, visto funcionar ainda mesmo com vento e mau tempo. É admirável este aparelho, pelas leis inteiramente novas que revela, como, outrossim, o que se segue. O ‘Teletiton’, sorte de telegrafia fonética com o qual, sem fio, duas pessoas podem se comunicar, sem que sejam ouvidas por outra. Creio que com este meu sistema poder-se-á transmitir, a grandes distâncias e com muita economia, a energia elétrica, sem que seja preciso usar-se de fio ou cabo condutor.

Disse ‘com este meu sistema’ porque não faço uso de nenhum dos aparelhos ou das peças até hoje imaginadas para este fim como bem para a cabal resolução do magno problema da telegrafia sem fio.  

O ‘Edifono’, finalmente, serve para dulcificar e depurar das vibrações parasitas a voz fonografada, reproduzindo-a ao natural. Este aparelho tornar-se-á o amigo inseparável dos músicos compositores e dos oradores. São estes os aparelhos que terei a subida honra de apresentar a V. Exa, os quais cederei de bom grado a quem mais vantagens me oferecer; caso, porém, as propostas que porventura me forem feitas não compensem os imensos sacrifícios que tenho feito, nem sejam adequadas aos lucros que os proponentes poderão haurir destes aparelhos, desde já declaro oficialmente a V. Exa que farei deles doação ao Governo Britânico ou a qualquer Instituição Universitária, a fim de que, com o fruto da exploração dos mesmos, abram, na Inglaterra, duas casas para amparo e educação dos filhos e das filhas desses bravos que têm sucumbido nos campos dessa terrível pugna anglo-transvaaliana, com a condição que me dêem o necessário para viver e para continuar com os meus estudos e experiências científicas.  

1901
24 de fevereiro, página 2:
O GOURAUDPHONO
Em ‘La Voz de España’, de 16 de dezembro, publicou o Dr. Rodrigo Botet o
seguinte:

‘Um jornal da Capital Federal atribuiu a invenção desse aparelho, que tem a propriedade de transmitir a voz humana a uma distância de oito, dez ou doze quilômetros sem necessidade de fios metálicos, ao engenheiro inglês Sr. Brighton.
O diário a que me refiro está mal informado.

Nem a invenção do sistema de transmitir a palavra à distância de dez ou doze quilômetros é recente nem foi um inglês o primeiro que resolveu satisfatoriamente este árduo problema, que envolve os mais intrincados princípios físico-químicos que podem oferecer-se à ciência humana. O que primeiro penetrou e descobriu os grandes segredos da telúrica etérea com glória e proveito, fez pouco mais ou menos um ano, foi um brasileiro, foi o meu nobre e sábio amigo o Rev. Padre Roberto Landell.

Porque segui passo a passo o estudo de seus diversos inventos sobre telegrafia e telefonia, com fios ou sem eles; porque fui testemunha presencial de várias experiências, todas elas de prodigiosos resultados; e porque tive a honra de ocupar-me dele e de suas obras em dois artigos que publicou ‘El Diário Español’, de São Paulo, os quais mereceram a honra de ser reproduzidos pelo ‘Jornal do Comércio’ do Rio, vejo-me obrigado, agora, a sair em defesa do direito de prioridade que assiste ao benemérito brasileiro Rev. Padre Roberto Landell, quanto ao que se refere à transmissão da palavra falada sem necessidade de fios. Antes desse apóstolo da religião de Cristo e da ciência, ninguém, absolutamente ninguém, fez alguma coisa prática em telefonia aérea sem cabos, servindo-se só e só de fatores aquosos, terráqueos e aéreos.  

O Rev. Padre Landell foi o primeiro que construiu seu magnífico telefônio, sem precisão de fios, para transmitir a voz, as notas musicais e os ruídos apenas sensíveis ao ouvido, tais como o tique-taque do relógio, a grandes distâncias. A telefonia aquática e subterrânea, e bem assim o ‘Teletiton’, espécie de telegrafia fonética, sem uso de fios metálicos, são obras também de grande glória, e a prioridade delas pertence ao referido sábio brasileiro. O ‘Teleauxiofônio’, última palavra da telefonia com fios em razão do vigor e da clareza com que transmite a voz articulada a grandes distâncias, os físicos europeus e norte-americanos transformaram-no num poderosíssimo auxiliar do ‘Teatrofônio’, ou seja: do ‘Telefônio Alto-falante’. Mas é de mister advertir que eles adotam um aparelho receptor da nota musical ou som articulado para cada instrumento dos que compõem a orquestra, enquanto o sábio brasileiro, deixando muito atrás os seus colegas estadunidenses, só precisa de um aparelho receptor, ainda que sejam muitos os instrumentos musicais e a vozes cantantes em concerto.  

Este mérito ressalta mais se se tem em conta que os inventores europeus e americanos têm à mão artistas mecânicos inteligentíssimos, fábricas e laboratórios donde escolher os objetos de que necessitam para confeccionar o mecanismo de suas obras. O Rev. Padre Landell tem de conceber e executar ele mesmo os aparelhos, sendo a um só tempo o sábio que inventa, o engenheiro que calcula e o operário que forja e ajusta todas as peças de complicadíssimos mecanismos. Esta última conquista científica, que, fazendo prodígios de habilidade e dando provas da mais remontada sabedoria, conseguiu alcançar o Rev. Padre Landell, constitui notabilíssimo capítulo de progressos físico-mecânicos, capaz de eternizar o nome de seu inventor. Mas acontece que o humilde sacerdote se fecha em sua modéstia habitual, e - em vez de dormir sobre os louros que, por justos e bem merecidos, lhe tributam os poucos amigos e admiradores que tem a seu lado, capazes de compreender o sábio e avaliar o valor de seus inventos - trabalha sem cessar, para honrar cientificamente a Pátria e glorificar o nome que carrega.  

Bem haja o grande físico-químico brasileiro, que deu ao estudo e à resolução dos mais profundos problemas físico-químicos o fruto inteiro de sua vida, e aos 39 anos de idade descobre novas leis relativas a esse fluido levíssimo que enche o espaço universal, enfeixando-as e ordenando-as com precisão matemática dentro de sua soberba e belíssima teoria, por ele mesmo denominada ‘telúrico etérea’, como resultância de seu assíduo estudo acerca da ‘unidade das forças físicas’. Dessa descoberta fez derivar o sábio brasileiro as surpreendentes invenções que há pouco citei, e a História desta terra, um dia, o consagrará, quando o tempo e os fatos justificarem o imenso mérito de suas obras maravilhosas. Seja-me permitido, agora, consignar nestas colunas os mui felizes resultados que obteve, faz seis meses, meu Rev. amigo Padre Landell, experimentando no alto de Sant’Ana, na presença do Cônsul britânico, Sr. C. P. Lupton e outras muitas pessoas, diversos aparelhos de telefonia e telegrafia com e sem fios, tudo como constam das ‘várias’ do ‘Jornal do Comércio’, do Rio, dos dias 10 e 16 de julho deste ano.  

Mas quantos e que cruéis sacrifícios de tempo, de dinheiro e de saúde custam ao Rev. Padre Landell as suas invejáveis conquistas científicas! Quantas e que amargas decepções experimentou, ao ver que o Governo e a Imprensa de seu País, em lugar de o alentarem com o aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal, fizeram pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos! Se o Rev. Padre Landell houvesse nascido na Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos, tão logo as suas tentativas de telefonia sem fio demonstraram o bom caminho em que o sábio inventor havia colocado os termos resolutivos de seu grande problema, Governo, Imprensa, banqueiros e Povo, como sucedeu na Espanha há alguns anos com o submarino Peral, ter-se-iam apressado em prestar-lhe todo o gênero de recursos, até que chegassem a uma feliz conclusão as suas descobertas científicas. Mas o Rev. Padre Landell é brasileiro, e do Brasil já disse o famoso naturalista Agassiz que ‘tudo é grande, menos os homens’, frase que, ao pronunciá-la eu perante ele, em tom de queixa, pelo esquecimento ou pouca atenção que os compatriotas prestavam a seus prodigiosos inventos, foi imediatamente contestada, com a bondade angelical que o caracteriza, e com a expressão franca e cordial tão peculiar aos filhos do Rio Grande do Sul, mais ou menos nestes termos:
- ‘Não, meu amigo, não é de todo certa a apreciação do naturalista, e ainda menos aplicando-a no meu caso pessoal. Asseguro-lhe que não só o Brasil é grande pelas galas e riquezas que Deus lhe deu, mas também seus filhos o são. Acontece que os brasileiros, com raras exceções, não têm toda a capacidade científica necessária para me acompanhar nas diversas fases que revestem o estudo e a resolução dos complicados problemas que tenho nas mãos. É óbvio que aqueles que não compreendam bem uma razão científica não possam enquadrá-la em seu justo mérito, nem tampouco aplaudir-me e ajudar-me com recursos para prosseguir no estudo e no trabalho. Com certeza, supõem que vivo sonhando entre utopias científicas de utilidade aparente. Tenho, entretanto, a consoladora esperança de que, em curto interstício, minhas obras científicas brilharão como o sol do meio-dia, em virtude da sorte de outros inventores que, mais afortunados do que eu, irão descobrindo os meus próprios inventos, concebidos e executados por minhas próprias mãos no silêncio de minha pobre e reduzida oficina, onde a ciência manda e a experiência executa, antes de os sábios da Europa e da América darem forma tangível, útil, e aplicação pública a obras iguais e similares às minhas. Bem sei que, em coisas de ciência, o que avança em relação à época, não deve esperar justiça dos contemporâneos. O que desejo é que o fruto de meus estudos se traduza em proveito e glória de minha Pátria, e em holocausto ao Deus Supremo, que me inspira em minhas investigações e me ilumina com suas divinas luzes para penetrar e ordenar, à minha maneira, esses fatores interessantíssimos da Criação, que nos ligam aos outros planetas, estabelecendo comunicação entre as esferas mais remotas e as entranhas da terra que pisamos. Só por isso, dou-me por bem recompensado das pesadas vigílias e das infinitas penúrias que me custam as invenções que você e alguns íntimos amigos conhecem pormenorizadamente, e o público somente por alto.’

            Julgue o Brasil agora ao seu eminente filho e aquilate suas notáveis obras.

25 de fevereiro, página 2:
Sabemos que o Padre Roberto Landell, Vigário de Sant’Ana, em S. Paulo, de que ontem nos ocupamos em Gazetilha, brevemente virá a esta Capital, em trânsito para os Estados Unidos, e fará algumas conferências científicas [acerca das] experiências dos aparelhos de sua invenção, sobre a propagação do som a grandes distâncias. 

14 de junho, página 2:
Parte hoje para a Europa no vapor Piemonte, o Sr. Padre Roberto Landell, e daí para os Estados Unidos, em excursão científica.  

1902
6 de novembro, página 1: 
O GOURADFONO

Um telegrama que recebemos anteontem de Nova Iorque noticia que reina uma ansiosa simpatia pelas próximas experiências definitivas de telefonia sem fio, descoberta esta do sacerdote brasileiro Landell de Moura. O padre Roberto Landell é natural do Estado do Rio Grande do Sul; tendo nascido na cidade de Porto Alegre em 1862, estudou em Roma, no colégio Pio Latino, tendo desde o início de sua carreira eclesiástica se dedicado ao estudo da química e da física, com fervoroso interesse e amor. Uma vez ordenado exerceu o cargo de vigário na cidade de Campinas, Estado de S. Paulo, e mais se dedicou ao seu invento, quando então exercia o lugar de capelão do Colégio de Santana naquele Estado. Modesto, de uma modéstia que o tornava até tímido, o padre Landell começou sem ruído e sem reclamos as experiências de aparelho que inventara e a que dera o nome de ‘Gouradfono’.

Consciente do êxito que havia tido o seu novo invento, obteve em 1901 privilégio do governo brasileiro. Difícil, porém, era completar e construir o seu aparelho, no Brasil, em cujo mercado não encontrava o material que necessitava, nem campo vasto e adequado para uma segura prova da sua genial descoberta.Com recursos próprios e até mesmo com sacrifícios partiu do Rio de Janeiro em junho de 1901 para a Itália e daí para a França, e em agosto desse mesmo ano para os Estados Unidos da América, onde com todo o devotamento se entregou à execução do aparelho que havia inventado e que já em S. Paulo, no alto da serra de Santana, tinha realizado experiências na presença de várias pessoas e entre estas do Cônsul da Inglaterra Sr. C. P. Lupton. O invento do nosso inteligente patrício consiste em transmitir a voz humana a uma grande distância sem necessidade de fios metálicos. Cabe pois ao modesto sacerdote a descoberta dos grandes segredos da telúria etérea por meio da telegrafia e da telefonia sem fios, servindo-se unicamente de fatores aquosos, terráqueos e aéreos. Parece que o Brasil está fadado para ocupar no mundo das ciências lugar proeminente pelas glórias dos Santos Dumont e dos Landell.

26 de novembro, página 2:
"O TELEFONE SEM FIOS"

Transcrevemos da edição domingueira do ‘New York Herald’, em 12 do corrente:

A telefonia sem fios é um corolário natural da telegrafia sem fios. Ambas essas invenções humanas se baseiam nas mesmas grandes leis da natureza. Mas a telegrafia sem fios é hoje um fato, aceito pelos cientistas e pelo público. A telefonia sem fios é, pelo contrário, uma coisa que ainda jaz na esfera do problemático. Os cientistas mostram-se interessados pela sua viabilidade, tanto na Inglaterra como na Alemanha. Mas entre o público de muitas cabeças não aparecera ainda a que devia consagrar o assunto. Mesmo entre os homens de ciência é pouco conhecido o nome do padre brasileiro Roberto Landell de Moura. Poucos deles têm sequer notícia dos seus títulos à dignidade de primeiro pioneiro deste ramo de investigação elétrica. Os Srs. Brighton, da Inglaterra, e Ruhmer, da Alemanha, têm chamado a atenção dos interessados com as suas experiências de telefonia sem fios.

Mas antes de Bryghton e Ruhmer chegarem a tornar-se conhecidos já o padre Landell, depois de anos de experiência, conseguira obter uma patente brasileira para o seu invento. A patente foi concedida em 1900. Figura o no 3.279 nos registros brasileiros. Foi expressamente concedida a ‘um aparelho destinado à transmissão fonética da palavra à distância, com ou sem fios, através do espaço, da água e da terra’. Com esse aparelho o padre Landell, nos anos de 1900 e 1901, fez muitas demonstrações públicas que atraíram a atenção no Brasil, mas que só vaga e intermitentemente chegarão aos ouvidos da pátria anglo-saxônia.
E por que? Pode encontrar-se uma espécie de resposta a essa pergunta num artigo de ‘La voz de España’, jornal de S. Paulo, publicado em data de 16 de dezembro de 1900. Dizia o articulista, amigo pessoal do reverendo cientista:  

- Se o padre Landell tivesse nascido na Inglaterra, na Alemanha ou nos Estados Unidos, o Governo, os capitalistas e o próprio povo ter-se-iam apressado em oferecer-lhe toda a espécie de auxílio, de modo a ser-lhe permitido levar as suas descobertas científicas a uma conclusão feliz. Infelizmente o padre Landell é brasileiro, e do Brasil já disse Agassiz, o famoso sábio: ‘Tudo aqui é grande; só os homens são pequenos.’ A ser esse o verdadeiro motivo, o Padre Landell foi um dos últimos a acreditar nele. O mesmo escritor reconhece que o Rvd. Padre ‘com a angélica bondade que o caracteriza’ repudiou expressamente essa ofensa à sua pátria.  ‘Não, meu amigo’, escreveu o Padre Landell, ‘a opinião do grande naturalista que você citou não só ao meu caso especial é inaplicável: o Brasil é grande, tanto pelas riquezas que Deus sobre ele derramou, como pelos seus filhos.’

O jornal que publicou esta correspondência assinalava o fato do Padre Landell, na presença do Sr. Lupton, Cônsul inglês em S. Paulo, e de outras personalidades locais, ter demonstrado que pelo seu aparelho a voz humana podia se transmitida foneticamente, sem ser por intermédio de fios a uma distância de 30 ou de 35 milhas. Tudo isto se passou há algum tempo. Depois dessa data o padre Landell deixou o seu país natal e há vários anos que está residindo na cidade de Nova Iorque. Já requereu à Repartição das Patentes de Washington para tirar dos seus inventos para os Estados Unidos. Foi-lhe respondidos que as suas teorias eram tão revolucionárias que se não poderiam conceder patentes sem apresentação de modelos que funcionassem e assim tornassem prática a demonstração da verdade das invenções. O inventor fornecê-los-á apenas esteja em condições de fazê-lo. Só há poucos dias encontrei o padre Landell pela primeira vez.

Observei nele um cavalheiro de cerca de quarenta anos, magro e ascético de corpo, vivaz e entusiástico de espírito. Nasceu no Brasil, em cujo país nasceram também seus pais, se bem que sua mãe seja de descendência escocesa. Educado e ordenado na Europa, regressou ao seu país natal para aí se fazer pároco e professor do Seminário onde esteve até partir para os Estados Unidos. Dispôs-se imediatamente a falar-me das invenções a que está consagrada toda a sua vida profana, que só essa lhes está dedicada, porque o seu primeiro pensamento pertence à sua religião, e só o seu segundo pensamento pertence à ciência.

‘Desejo mostrar ao mundo’ disse-me ele ‘que a Igreja Católica não é uma inimiga da ciência e do progresso humano. Indivíduos da Igreja podem num ou noutro caso ter se oposto à luz, mas fizeram-no na sua cegueira pela verdade católica. Eu próprio já deparei com grande oposição dos meus companheiros de fé.   No Brasil, um populacho supersticioso, afirmando que eu tinha partes com o Diabo, invadiu o meu gabinete e destruiu o meu aparelho. Quase todos os meus amigos de educação e camaradas intelectuais, seculares e leigos indiferentemente, consideravam as minhas teorias contrárias à ciência. Sei bem o que é sentir como Galileu e exclamar como ele: E pur si muove. Quando todos eram contra mim, eu contentava-me em conservar-me no meu terreno, e dizia: ‘É assim; não pode ser de outro modo.’

            O padre Landell explicou-me que lhe era impossível entrar em pormenores relativamente às suas teorias e invenções enquanto as patentes estivessem pendentes de registro. Mas a traços largos teve a amabilidade de explicar que o seu sistema de telefonia sem fios se baseava em um novo princípio da luz por ele descoberto. Em virtude desse princípio, continuou ele, é possível transmitir a voz através de um eixo luminoso sem intervenção do selênio ou de um microfone. Nem mesmo um aparelho de recepção será preciso. Todas as pessoas que se acharem dentro do raio de receptividade poderão ouvir o recado telefônico simplesmente com o auxílio dos seus órgãos naturais. - E qual é a distância a que o senhor pode atingir - A uma distância por assim dizer infinita.”

1904
27 de maio, página 2:
Carta, que nos foi mostrada, escrita de Nova Iorque por pessoa respeitável, traz lisonjeiras referências ao nosso patrício Revd. Padre Roberto Landell de Moura, rio-grandense, que se acha na grande cidade americana, há três anos, tratando de novas aplicações de eletricidade, cujas experiências têm dado os melhores resultados, segundo referem os jornais de Nova Iorque e alguns dos quais publicaram o seu retrato, apresentando-o como notabilidade científica. Os seus aparelhos de telegrafia e telefonia sem fio condutor foram ultimamente privilegiados pelo Governo Americano, tendo declarado o parecer dos peritos que os dois sistemas de transmissão sem fio condutor excedem os anteriores; sendo o Padre Roberto, em relação à telefonia sem fio, o descobridor e criador dos princípios em que ela assenta. Atualmente trabalha em novas aplicações que têm conexão com as outras experimentadas, e são necessárias para completa garantia de todos os seus inventos e privilégios obtidos.  

19 de junho, página 3:
NA AMÉRICA DO NORTE

Escreve-nos Monsenhor Vicente Lustosa:  

Nova Iorque, 7 de maio – Chegando à baía de Nova Iorque às 5 horas da manhã do dia 29 do mês próximo passado, naquele momento, o que mais atraía a nossa atenção era a estátua a Liberdade, este pequeno colosso de Rodes, colocado numa ilhota, no meio da baía, com 103 metros de altura e dominando vastíssima área com a projeção do foco elétrico que tem em uma das mãos. Dir-se-ia a liberdade espantando trevas e abrindo novos caminhos à grandeza e à prosperidade admiráveis desta nação. E, certamente, os Estados Unidos da América do Norte têm dado, no mundo inteiro, o exemplo do seu amor, não a esta liberdade sem freio e sem limites, com absoluta emancipação de Deus, e que degenera em licença, mas a uma liberdade de melhor modo entendida, a uma liberdade que proclama os direitos supremos de Deus sobre todas as ações do homem, pois, apesar de seus erros e vícios, os governos desta grande nação têm, ao menos praticamente, reconhecido estes direitos, prestado enquanto nação, um culto a Deus e fazenda da sua lei a base de seu progresso e de sua civilização. 

Amanhecendo, não pudemos desembarcar senão às 5 horas da tarde; um vento impetuoso, acompanhado de chuva, neve e intenso frio, que invadia-nos até a medula dos ossos, e graus abaixo de zero, impedia o vapor de atravessar a doca. Só às 8 horas da noite, conseguimos instalar-nos no ‘Park Avenue Hotel’, casa de 1a ordem entre a 4a Avenida e a de Madison. No dia 21, depois do almoço, fizemos a pé uma grande excursão em companhia de um nosso patrício, o mui gentil filho do Dr. J. C. de Lima, nosso companheiro de viagem. Era um passeio de exploração, queríamos tomar altura, e verificar os quatro pontos cardeais. Visitamos o nosso Cônsul geral, o Dr. Antônio Fontoura Xavier, cavalheiro de fino trato e que obsequiou-nos com a gentileza de muitos oferecimentos e de sua visita no mesmo dia.  

Visitamos também o nosso patrício Padre Roberto Landell de Moura, rio-grandense-do-sul, que há cinco anos foi vigário em Campinas de São Paulo, e que aqui reside há três anos, fazendo estudos sobre eletricidade. Montou um modesto gabinete e conseguiu descobrir novas e interessantes aplicações de eletricidade, e sobre a espécie já obteve do Governo americano dois privilégios, e está em vias de alcançar outros. Os jornais de Nova Iorque já se ocuparam honrosamente de seu nome, publicando o seu retrato e diplomando-o de sábio. E distintos engenheiros, em sinal de apreço e consideração, ofereceram-lhe um jantar. Entretanto, o Padre Landell de Moura está inteiramente abandonado de seus patrícios, vive aqui com parcos recursos e sem poder alargar a esfera de sua atividade nos seus inventos e aplicações. Uma companhia exploradora já quis comprar por preço insignificante os seus privilégios, para rotular tudo como coisas americanas.

O americano é muito cioso do seu gênio inventivo.

10 de agosto, página 2:
O Governo dos Estados Unidos da América concedeu ao nosso compatriota padre Roberto Landell, atualmente em Nova Iorque, mais uma patente de invenção que tem por fim a transmissão da nota musical e de canto à grande distância sem a menor cooperação nem de fios condutores nem de eixo luminoso.

O efeito obtém-se mediante impulsos ou vibrações elétricas, os quais são convertidos na estação final em ondas sonoras, idênticas à da estação inicial.

Tem, pois, atualmente o nosso compatriota três patentes concedidas por aquele Governo, a saber: ‘in a Wireless Telephone’, ‘in a Wireless Telegraph’ e ‘in a Wireless Wave Transmitter’, títulos estes oficiais das patentes concedidas, as quais envolvem quatro novos sistemas de transmissão sem fio condutor, sendo dois telefônicos e dois telegráficos.

18 de novembro, página 1:
PARIS, 17

O inventor brasileiro Padre Landell de Moura partirá no dia 25 do corrente para o Rio de Janeiro, de onde mais tarde regressará a Nova Iorque para resolver definitivamente acerca de seus três sistemas privilegiados de telegrafia e telefonia sem fios.  

1905
11 de março, página 2:
NOVOS INVENTOS

O governo dos Estados Unidos da América, depois de minucioso exame, concedeu ao nosso compatriota padre Roberto Landell de Moura três patentes de invenção para os seus aparelhos ‘Wireless Telegraph’, ‘Wireless Telephone’ e ‘Wave Transmitter’. Em tempo nos ocupamos dos inventos do estudioso sacerdote e dentre estes do Gouradphono, de que obteve também privilégio do Governo brasileiro. O ‘New York Herald’ de outubro de 1902 estampou em seu número ilustrado o retrato do inventor brasileiro, que ali se achava, com uma longa notícia acerca dos seus inventos, e para os quais solicitara patente de invenção. A telefonia e a telegrafia sem conduto metálico. Da leitura do relatório dessas três patentes e do exame dos desenhos que os acompanham, ressalta o seu saber prático e científico, já pela novidade dos aparelhos, já nos novos princípios descobertos pelo padre Roberto Landell de Moura.  

Não podemos dar amplas descrições desses inventos, porque para tanto seria preciso que o autor revelasse certas particularidades, que vulgarizadas poderiam prejudicá-lo, constando como constam elas de vários pedidos de novos privilégios de invenção, que o Padre Landell está elaborando e são necessários à garantia dos seus direitos com relação às várias aplicações que podem ter certas peças que figuram nas três patentes de invenção concedidas nos Estados Unidos. Pelo que ele nos revelou, cremos dar uma idéia sucinta do valor prático e científico das suas invenções privilegiadas. As três patentes de invenção que lhe foram concedidas pelos governos dos Estados Unidos da América envolvem dois sistemas de telefonia e dois de telegrafia, funcionando todos os quatro sistemas sem fios condutores.

De acordo com o texto das patentes, pode o autor telegrafar ou telefonar a grande distância servindo-se de ondas luminosas ou de ondas elétricas. Quando a transmissão é feita mediante ondas luminosas pode atingir facilmente de 30 a 50 quilômetros e até a maiores distâncias, pois estas estão na razão direta do eixo luminoso. Este sistema difere muitíssimo do “photofone” de Bell, porque no sistema do padre Landell o eixo luminoso é modificado não somente pela ação mecânica da voz, como sucede com o sistema de Bell e seus congêneres, mas também por vibrações elétricas produzidas pela voz. Assim é que devido a estas e a várias outras circunstâncias muito importantes e novas, que o autor não pode declinar pelas razões já lembradas, o seu sistema de telefonia sem fio condutor, pela ação da luz, não pode ser perturbado em seu funcionamento nem pelo sol, nem pela chuva, nem pelo vento, nem pela neblina ou qualquer outro fenômeno meteorológico, como confirmam as várias experiências feitas por ele e por vários experimentadores.  

O que dissemos em relação ao seu sistema de telefonia pela ação da luz, ocorre também com relação ao seu sistema de telegrafia e ainda pela cooperação da luz e cujo funcionamento baseia-se nos mesmos princípios do sistema de telefonia luminosa. Quanto ao outro seu sistema de telefonia também sem fio condutor, isto é, mediante ondas elétricas especiais, sem a mínima cooperação do eixo luminoso, e através do espaço, temos a dizer que ele foi o criador e o inventor não somente desse sistema, mas também do sistema de transmissão através do solo como se deduz dos relatórios de suas patentes americanas e da que lhe foi concedida três anos antes de se terem feito experiências na Europa e nos Estados Unidos. Esse sistema de transmissão através do solo por ele inventado e privilegiado, conquanto não seja comercial, servirá de ponto de partida para mais tarde se conhecerem as leis pelas quais funcionara a primeira, isto é, através, do espaço mediante ondas sonoras, elétricas-ondulatórias. 

Neste sistema de telefonia ondulatória o som é transformado em ondas elétricas, as quais se propagam através do espaço percorrendo grandes distâncias, e chegando na estação terminal são novamente transformadas em sons pelos aparelhos da estação receptora. Por esse seu sistema a nota musical, o canto e a palavra articulada podem ser transmitidas a distâncias verdadeiramente prodigiosas. Se os cálculos são certos, dentro de breve tempo espera o inventor reduzir o seu sistema de telefonia ondulatória à perfectibilidade da telefonia vulgar obrigada a fio condutor. Quanto ao seu sistema de telegrafia também sem condutor metálico, por meio de ondas elétricas, apresenta as seguintes novidades, que o destaca inteiramente dos atuais sistemas em uso, tomando, devido a certas circunstâncias, mais efetivo, mais prático, mais econômico e de manipulação mais fácil:  

1º - porque a transmissão é feita por uma chave especial, ou por tonalidades correspondentes às longas e breves do alfabeto de Morse.

2º - porque a recepção pode ser feita mediante um receptor de Morse ou por um aparelho que emita notas ou tonalidades idênticas às que foram produzidas na estação transmissora.

3º - porque as perturbações ou movimento elétrico ondulatório que se propagam através do espaço podem ser o produto de irradiações elétricas ondulatórias refletidas ou não refletidas como sucede com os demais sistemas de telegrafia sem fio condutor.  

Essas ondas refletidas, das quais faz uso o padre Landell, foram oficialmente classificadas como novas e a ele compete a glória de as ter descoberto, pois diferentemente das outras elas, podem ser refletidas em sua tonalidade, porque, mais do que qualquer outra espécie de ondas elétricas até hoje conhecidas, são elas as que mais se prestam a reproduzir mediante ondas elétricas todas as propriedades da luz. Conquanto esse seu sistema por ondas elétricas refletidas não possa atingir a grandes distâncias, as quais se podem alcançar com o outro sistema por meio de ondas elétricas não refletidas, todavia tem uma vantagem muito grande sobre o segundo, a saber: que a ação podia ser a vontade limitada aos quatro pontos cardeais, o que em certas circunstâncias é de grande alcance, principalmente na tática militar. Muitas outras circunstâncias capazes de salientar o seu sistema de telegrafia sem condutor metálico, acrescentou o padre Landell de Moura, deixava de expor para não prejudicar outras invenções que nos disse ter em mente concluir...

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